segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Wings Of Desire


Ontem assisti um filme que espero há alguns anos para ver, indicado a mim por um amigo na época e que esses dias quando fui em um espaço cult lembrei do filme e resolvi baixá-lo na internet, o nome do filme é Asas do Desejo(Wings Of Desire), um filme em Preto e Branco feito em 1987.
O filme ocorre em Berlim, e conta a historia dos anjos observando o comportamento humano na Terra. Um dos anjos sente vontade de sentir tudo o que o ser humano e capaz de sentir. Sentir o sabor do café, o calor de duas mãos se esquentando, a emoção de tirar um sapato debaixo da mesa, sentir a brisa, ser capaz de ver as cores.
Antes de eu falar mais o que achei a respeito, quero postar aqui as observações sobre as crianças, simples observações, que tornam o fato tão belo...
A criança, quando criança, caminhava de braços caídos, queria que o ribeiro fosse um rio, o rio uma torrente e este charco, o mar.
A criança, quando criança, não sabia que era criança,  tudo para ela tinha alma e todas as almas eram uma só.
A criança, quando criança, não tinha opinião sobre nada, não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, de repente desatava a correr, tinha um remoinho no cabelo e não fazia careta quando era fotografada.
A criança, quando criança, detestava espinafres, ervilhas, arroz doce e couve-flor estufada.
Agora come isso tudo, e não só por necessidade.
A criança, quando criança, acordou uma vez numa cama  desconhecida e agora acorda constantemente.
Muitos dos seres humanos lhe pareciam belos, e agora só Imaginava claramente o paraíso e agora, quando muito, só é capaz de o pressentir.
Não podia imaginar o nada  agora tem-lhe pavor.
A criança, quando criança, brincava com entusiasmo, e agora só tem esse entusiasmo de outrora quando se trata do seu trabalho.
A criança, quando criança, bastava alimentar-se de maçãs e pão.
E assim continua a ser.
A criança, quando criança, as bagas na palma da mão eram para ela apenas bagas, e continuam a ser.
As nozes frescas punham-lhe a língua áspera, e continuam a pôr.
Em cada montanha ansiava por uma montanha mais alta.
Em cada cidade ansiava por outra ainda maior, e assim continua a ser.
No cimo de uma árvore colhia cerejas com entusiasmo, como hoje ainda colhe.
Tinha medo dos desconhecidos e continua a ter.
Esperava pelas primeiras neves e continua a esperar.
A criança, quando criança, atirava um pau, em jeito de lança, contra uma árvore.
E ainda hoje a lança lá estremece.

Como é lindo a forma de observação, as pequenas coisas, a comparação com o adulto, e o melhor, é que o filme mostra as coisas como são, sem produções hollywoodianas, crianças de óculos fundo de garrafa, dentes tortos, criança como uma criança deve ser, natural! Sem maquiagem, sem frescuras, apenas brincando!
Uma cena chamou muito minha atenção, a cena em que os dois anjos juntavam-se e diziam o que puderam observar na terra, como um relatório. Nesse momento, podemos ‘sentir’ como todas essas pequenas sensações fazem a vida tão significativa, tão feliz.
No trecho abaixo o anjo demonstra seu desejo de ser como um ser humano, vivendo o hoje, aproveitando a vida....



É fantástico viver espiritualmente.
Dia após dia testemunhar para a eternidade o que há de puro, de espiritual nas pessoas.
Mas às vezes farto-me desta eterna existência de espírito.
Nessas alturas gostaria de não pairar eternamente.
Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à Terra.
A cada passo ou a cada golpe de vento gostaria de poder dizer: "Agora, agora, agora" e não "desde sempre" ou "para todo o sempre".
Sentar-me à mesa e jogar às cartas, ser cumprimentado, nem que seja só com um aceno.
Sempre que o fizemos, foi a fingir.
Fingimos que numa luta de boxe deslocávamos uma anca.
Fingimos que pescávamos, fingimos que nos sentámos numa mesa a comer e a beber, que nos serviam borrego assado e vinho nas tendas no deserto.
Era tudo a fingir.
Eu não quero gerar um filho, nem plantar uma árvore, mas seria bem agradável chegar a casa cansado e dar de comer ao gato, como Philipp Marlow, ter febre, ficar com os dedos sujos de ter lido o jornal...
Não me entusiasmar só com coisas do espírito, mas com uma refeição, a curva de uma nuca, uma orelha.
Mentir à descarada.
Ao andar, sentir o esqueleto mexer-se a cada passo.
E finalmente supor em vez de saber sempre tudo.
Poder dizer "ah", "oh" e "ai" em vez de "sim" e "amen".
Poder, ao menos uma vez, entusiasmar-me com o mal.

Veja só como o hoje, o aqui e o agora é tão importante, como os sentimentos, as sensações são maravilhosas, e que até a pequena brisa faz a vida ter um colorido a mais.
É difícil na atualidade “testemunhar para a eternidade o que há de puro, de espiritual nas pessoas”, e é justamente isso que a história tenta nos mostrar, ver a vida com outros olhos, podendo sim ser mais bela, podendo sim ser melhor, mostra o pensamento das pessoas no dia-a-dia, e o que as assombra!
Mas o que me deixou mais maravilhada, foi o monólogo da cena final, alguns trechos abaixo:

Algum dia terá de ser a sério.
Estava muito só, mas nunca vivi só.
Quando estava com alguém estava muitas vezes feliz mas ao mesmo tempo achava tudo fruto do acaso.
Aqueles eram os meus pais, mas podiam ser outros.
Estava com um homem, estava apaixonada, mas podia tê-lo deixado e ter ido com o desconhecido que vinha do outro lado da rua.
Olha para mim ou não.
Dá-me ou não a tua mão.
Não. Não me dês a mão, nem olhes para mim.
Creio que hoje é lua nova.
Não há noite mais tranqüila.
Não correrá sangue na cidade.
Nunca brinquei com ninguém, no entanto nunca abri os olhos e pensei "Agora é a sério".
"Finalmente vai ser a sério".
Assim fiquei mais velha.
Apenas eu era pouco séria?
O tempo é coisa tão pouco séria?
Nunca fui solitária.
Nem quando estava só, nem quando com alguém.
Mas gostaria de ser finalmente solitária.
A solidão significa "Sou realmente um ser completo".

Posso dizê-lo porque hoje estou finalmente solitária.
Acabaram os acasos.
Lua nova da decisão.
Não sei se o destino existe, mas há uma decisão.
Decide-te.
Nós somos agora o tempo.
Não só a cidade inteira, mas o mundo inteiro participa na nossa decisão.
Nós dois somos agora mais do que dois.
Personificamos algo.
Estamos na praça do povo e a praça está cheia de pessoas que desejam o mesmo que nós.
Nós é que decidimos o jogo de todas elas.
Eu estou pronta.
Agora é a tua vez.
Tens o jogo na mão.
Agora ou nunca.
Tu precisas de mim.
Vais precisar de mim.
Não há história maior do que a de nós dois: homem e mulher.
Será uma história de gigantes.
Invisível, transmissível.
Uma história de novos progenitores.
Olha, os meus olhos são a imagem da necessidade.
O futuro de todos quantos estão na praça.
A noite passada sonhei com um desconhecido.
O meu homem.
Só com ele podia ser solitária e abrir-me.
Inteira, totalmente para ele.
Deixá-lo entrar totalmente como um todo em mim, cercá-lo com o labirinto da felicidade partilhada.
Eu sei, és tu.
Aconteceu algo.
Continua a acontecer.
É inevitável.
Era noite e agora é dia.
Agora ainda mais.
Quem era quem? Eu estava nela e ela em redor de mim.
Quem no mundo pode afirmar que alguma vez esteve unido a um outro ser humano?
Eu sou uno.
Não foi gerada uma criança mortal, mas uma imagem coletiva imortal.
Esta noite aprendi a admirar-me.


Enfim, gostaria apenas de compartilhar com vocês algumas boas sensações, e dizer que podemos ver a vida de outra forma, de outro ângulo e com outras cores...

Quem se interessar pode baixar o filme AQUI!

Um comentário:

  1. Vc se supera a cada post, pq vejo uma menina com conteúdo tão complexo e interessante, muito diferente do que se vê por aí. Parabéns Ari, vc tem muito talento para a escrita. Estou gostando muito do seu espaço.

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